Dor alívio sem remédio

As melhores técnicas para acabar com o incômodo nas costas, no pescoço, na cabeça e no joelho –  de massagem a meditação

Fonte: Revista Saúde n: 416

Fernando Pessoa já admitia: “O poeta é um fingidor/ Finge tão completamento/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente”. O famoso escritor português condensou, nesses quatro versos, a mais aflitiva e democrática manifestação de que algo não vai bem no corpo humano. Uma experiência pela qual todo mortal irá passar e que, tantas vezes, se torna um suplício crônico. Pois saiba que não é exagero poético afirmar que a humanidade, mais precisamente os brasileiros, anda cada vez mais dolorida. Que o diga um levantamento inédito feito pela área de Pesquisa e Inteligência de Mercado da Editora Abril em parceria com a empresa MindMiners, encomendado por SAÚDE.

Mais da metade dos 700 participantes do estudo reclama de dores constantes nas costas ou na cabeça. “Estamos falando de uma condição com enorme repercussão para o indivíduo, a sociedade e a economia”, analisa a anestesiologista Fabíola Peixoto Minson, do Centro Integrado de Tratamento da Dor, em São Paulo. Que fique claro: uma coisa é sentir dor depois de um esforço físico ou uma pancada. Outra, bem diferente, é esse martírio se perpetuar por meses ou anos. “Por motivos ainda desconhecidos, na dor crônica o organismo continua emitindo informações de que algo está errado”, explica a bióloga Camila Dale, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP).

A saída comum para abreviar o sofrimento são os remédios – na pesquisa, 62% disseram engolir comprimidos antes de consultar o médico. Ora, boa parte de analgésicos e anti-inflamatórios pode ser comprada sem receita na farmácia. “Só que o uso incorreto dessas drogas pode mascarar sintomas de um problema grave e causar danos em rins, fígado e coração”, alerta a anestesiologista Alexandra Raffaini. da Sociedade Brasileira de Médicos Intervencionistas em Dor. Segundo a consultoria IMS Health, quatro dos dez fármacos mais vendidos no Brasil são justamente para tratar dor. Numa parcela dos casos, porém, ela não vai embora.

Costas

Oito em casa dez pessoas já sofreram ou sofrerão em algum momento da vida com incômodos na região lombar. As origens do tormento são variadas: má postura, desgaste das vértebras, pancadas, hérnia de disco e até tumores podem ter como sintoma o aperto na porção inferior da coluna. Quando a dor ocorre em crianças e idosos, aparece após traumas, surge durante o sono ou causa perda de força e de sensibilidade a atenção deve ser redobrada. “Na maioria das vezes, o tratamento envolve fisioterapia para fortalecer os músculos que dão sustentação às costas”, descreve o médico Luis Eduardo Carelli, do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia. Aliás, o Colégio Americano de Medicina atualizou suas recomendações sobre o manejo dessa dor e também passou a indicar medicações só em último caso, se outras terapias não invasiva como pilates e reeducação postural global (RPG) não deram retorno satisfatório. Entre os métodos integrativos avaliados em estudo do Centro Nacional de Saúde Complementar dos Estados Unidos (NCCIH), existem evidências concretas a favor da acupuntura e da Ioga“A inserção de agulhas em pontos específicos induz a produção de substâncias internas que vão minimizar o desconforto”, detalha o clínico-geral Dirceu de Lavôr Sales, presidente do Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura e Ioga, conjunto de disciplinas corporais e mentais criado há milhares de anos na Índia, atua tanto no aspecto físico quanto emocionais. “Ela reduz a ansiedade e melhora a percepção que o indivíduo tem de si mesmo”, diz o educador físico Gerson de Oliveira, que, em seu doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), aplicou o Ioga em pacientes com esclerose múltipla, desordem neurológica que limita movimentos e pode gerar dores. Para garantir os benefícios, porém, é essencial recorrer a professores com formação na área.

Lamentamos informar, mas a maioria dos remédios não funciona a contento quando a dor é do tipo corriqueiro. Esse fracasso foi escancarado por uma nova revisão do Instituto George para a Saúde Global, na Austrália. Os experts avaliaram dados de 6 mil voluntários incluídos em 35 trabalhos com o propósito de testar o poder dos anti-inflamatórios. A conclusão mostra que só um em cada seis sujeitos obtinha algum alívio. “Passei 20 anos prescrevendo fármacos e nunca consegui uma resposta sustentável. Entramos agora numa era que a medicina está mais focada no estilo de vida equilibrado”, contextualiza o neurologista Pedro Schestatsky, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Se comprimidos, sozinhos, não silenciam as manifestações dolorosas de uma vez por todas, onde deveríamos depositar nossas esperanças? A aposta recai sobre o esforço conjunto entre médicos, fisioterapeutas, psicólogos, educadores físicos e nutricionistas. A Ideia é lanças mão de diversas técnicas e mudanças na rotina que, juntas, farão as pontadas atenuarem ou sumirem. “Hoje não dá pra imaginar o combate às dores crônicas sem o auxílio de vias não medicamentosas, ajustes na dieta e prática de exercícios”, atesta o reumatologista José Eduardo Martinez, da Sociedade Brasileira de Reumatologia.

Atenta a essa tendência, uma equipe liderada pelo Centro Nacional de Saúde Complementar e Integrativa dos Estados Unidos (NCCIH, na sigla em inglês) investigou quais terapias alternativas (massagem, acupuntura, meditação…) apresentavam o maior impacto na redução das dores mais prevalente: nas costas, na cabeça, no pescoço e nos joelhos. “Esses quadros são a razão mais comum de se buscarem novas formas de tratamento. Daí a importância de saber quais estratégias dão certo”, diz o epidemiologista Richard Nahin, principal autor do documento. Você confere, à esquerda e nas páginas seguintes, as estratégia que demonstraram provas sólidas de eficácia.

Cabeça

Há dois tipos que surgem habitualmente: a cefaleia clássica, que domina todo o crânio e está relacionada a uma vida extenuante, e a enxaqueca, marcada por pontadas na nuca, náuseas e vômitos. A terapia complementar indica, de acordo com o NCCIH, é a meditação. “Além de mudar a relação que o indivíduo tem com a dor, ela instiga o corpo a liberar substâncias anti-inflamatórias”, explica a psicobióloga Elisa Kozasa, do instituto do Cérebro do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Para adotar essa prática na rotina, são indispensáveis a disciplina e, se possível, a instrução de profissionais. “O estresse é um desencadeante das dores de cabeça e, portanto, toda iniciativa que traga relaxamento vai ajudar”, avalia o neurologista José Geraldo Speciali, da USP de Ribeirão Preto, no interior paulista.

Pescoço

A sina de postura torta com a tensão do Dia a Dia é a equação básica para sofrer com apertos na coluna cervical. “Na crise aguda, não tem jeito: é repouso e analgésico. Posteriormente, usamos a fisioterapia para aprimorar a musculatura que recobre as vértebras”, afirma o ortopedista Alexandra Fogaça, do hospital das Clínicas de São Paulo. Uma medida singela e eficaz para prevenir esse problema, segundo a pesquisa